O jornalismo que salva vidas

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No dia 6 de junho de 2016, o então presidente interino, Michel Temer assinou o decreto 8.783 determinando que ao menos uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) deveria estar sempre disponível para fazer, exclusivamente, o transporte de órgãos destinados a transplantes. Ana Júlia Aleixo, de 8 anos, foi uma das pessoas salvas por esse decreto, dias após sua publicação. A menina pode agradecer também ao jornalismo pelo novo coração.

Isso porque a determinação de Temer veio um dia depois do jornal O Globo publicar uma série de reportagens sobre as consequências causadas pelas recusas da FAB em fazer esse tipo de transporte. A investigação mostrou que nos mesmos dias em que as recusas aconteceram, 716 autoridades viajaram para compromissos oficiais e para suas residências em aviões da Força Aérea. A capa dO Globo de domingo repercutiu nas mídias sociais, em outros veículos de notícias e foi mencionada logo no início do discurso de Temer, anunciando o decreto:

 

“Não esperava que teria esse impacto tão abrangente e tão rápido”, disse Vinicius Sassine, repórter responsável pela investigação. A primeira reportagem sobre o assunto nO Globo foi publicada em janeiro de 2016 e contava a história de Gabriel, que com 12 anos sofria de uma cardiopatia e precisava de um novo coração. Quando finalmente o órgão surgiu em Minas Gerais a FAB foi acionada, mas negou o transporte por “questões operacionais”. Gabriel voltou para a fila e 14 dias depois morreu.

Logo depois das matérias de janeiro, surgiu a ideia de investigar mais a fundo o assunto e fazer a série de reportagens. A apuração foi feita de janeiro a junho de 2016, usando coleta de dados e a Lei de Acesso à Informação, “Analisamos cada dia de cada recusa [da FAB]”, explicou Sassine. Cada uma das reportagens gerava não apenas repercussão nas redes sociais, mas também movimentos das autoridades. O Ministério Público começou a investigar a situação e em abril veio a liminar na Justiça Federal obrigando a União a transportar os órgãos.

A intenção desde o início era mostrar histórias parecidas com a de Gabriel e os desafios logísticos do transporte de órgãos. Além dos dados utilizados, o repórter acompanhou pessoas que esperavam nas filas de transplantes: “O que aquelas pessoas viviam naquele momento na fila e cujas histórias foram contadas – a maioria delas crianças – serviu para evidenciar a gravidade de se privilegiar transporte de autoridades e não transporte de órgãos com curto tempo de isquemia”.

A reportagem expôs o funcionamento dos voos de autoridades: ministros e presidentes da Câmara e do Senado viajam amparados pelo decreto 4.224 de 2002, ou seja, a Aeronáutica não pode se recusar a transportá-los.

Já corações, pulmões, rins, fígados e ossos não chegavam aos pacientes que precisavam por conta da falta de transporte adequado e rápido. Entre 2011 e 2015, a FAB se recusou a transportar 982 órgãos. O contraste entre o tratamento apresentado pelas reportagens dO Globo gerou milhares de posts revoltados no Facebook e Twitter.

 

Toda essa repercussão fez com que o governo voltasse ao assunto, aparentemente esquecido.

O impacto das reportagens persiste em cada viagem feita pela FAB para transportar um órgão. Um levantamento feito quase um ano depois da vigência do decreto mostra que a Aeronáutica transportou 258 órgãos. Nos três anos anteriores foram somente 68.

 

Após a primeira investigação do MP, a liminar em abril e o decreto assinado em junho de 2016, novos ajustes foram feitos na legislação para transplantes, incluindo normas para o transporte de órgãos. As mudanças seguem acontecendo. Nas redes sociais, a Força Aérea comemora os transportes que podem salvar vidas.

Vinicius Sassine pretende continuar acompanhando a história, “Mexeu muito comigo como repórter”, afirma. Ele ressalta que o propósito do trabalho sempre foi denunciar o problema e com isso é preciso encontrar uma forma de fazer jornalismo equilibrado.

As duas reportagens mais recentes sobre o tema foram publicadas em 21 de janeiro deste ano. Com o déficit do transporte contornado, outro problema atrapalha a logística das cirurgias: a falta de exames adequados e doadores. “Sentia que, como repórter, tinha a obrigação de voltar ao assunto, e com viés crítico, depois de tudo que aconteceu em 2016”, disse Vinicius que voltou a acompanhar as filas de transplantes. Já são onze reportagens sobre o tema.

As histórias retratadas dessa vez mostra a angustiante espera das famílias dos pequenos  Wellington, de 5 anos e Lorena, de 10 meses, ambos com problemas no coração. Para Sassine,  “As histórias são sempre tristes. Mas sempre há muita esperança dos familiares, e há algo bonito aí”.

Além de toda a ação governamental desencadeada após a publicação, a série recebeu em 2016, o Prêmio de Magistrados do Rio de Janeiro Patricia Acioli, na categoria “Reportagens jornalísticas”.

Em 2017: o Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde e o Prêmio GDA, na categoria “Reportagem noticiosa de investigação” e o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha, este último considerado o mais simbólico por Sassine.

O impacto e os prêmios devem ser encarados como uma consequência, ressalta o jornalista. “Foram importantíssimos como estímulo à reportagem, reconhecimento da qualidade e correção do trabalho e valorização profissional”.

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