Ficou mais fácil coletar reportagens online para avaliar o impacto da mídia

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É possível identificar algum desequilíbrio de cobertura analisando títulos de reportagens jornalísticas? Como e em que situações a mídia retrata bairros periféricos? Jornais diferentes cobrem diferentes atores políticos de maneira proporcional? Mulheres e homens são fontes de reportagens científicas ou econômicas de maneira equânime?

Profissionais de redação e estudiosos de comunicação se ocupam com perguntas assim há décadas, e elas são fundamentais para ter um entendimento mais sofisticado do papel da imprensa no debate democrático e seu impacto na sociedade. Mas muitas vezes pesquisadores gastam tempo excessivo na coleta de material. Quando estava na faculdade, fazer comparações como as sugeridas ali em cima exigiam comprar vários exemplares de um jornal e literalmente recortar o que interessava, ir a CEDOCS ou gravar VHSs e decupar telejornais. Com a internet tudo ficou mais fácil, mas não tão fácil quanto gostaria. quando me deparei com a necessidade de fazer uma pesquisa assim, não achei boas ferramentas gratuitas prontas.

Por isso criamos esse conjunto de mini-apps em Python, provisoriamente chamado de impacto-midia, utilizando diferentes APIs, como a do MediaCloud e do Facebook. Para usá-lo, basta clonar o repositório neste Github e acompanhar as instruções para gerar, a princípio, um .csv com todas as reportagens de veículos selecionados que mencionem (no título ou no corpo) os termos de busca. Acrescentamos uma interface para que seja possível (e fácil!) visualizar todos os títulos, links e estatísticas de engajamento em redes sociais para rankear e categorizar tudo, usando tags diferentes reportagens. Daí é fácil exportar e visualizar o resultado. Na planilha de exemplo contida no repositório, coletamos 1.278 reportagens de 16 grandes veículos que mencionam Bolsonaro ou Haddad. Dali é fácil categorizar rapidamente quais foram positivas ou negativas para a campanha de cada candidato, por exemplo.

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Os códigos foram criados aproveitando partes do que foi construído para o Impacto.jor, iniciativa apoiada pelo Google News Initiative, com apoio do International Center for Journalists e Projor. Este repositório é uma obra conjunta do Bernardo Vianna (responsável por parte dos scrapers e toda a interface gráfica), minha e do Turicas, que reescreveu versões dos nossos programas. Apreciamos qualquer feedback para continuar melhorando a ferramenta, fazendo com que ela seja útil para pesquisadores com diferentes níveis de habilidade em programação.

Estamos contratando

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Estamos em busca de uma pessoa em São Paulo (capital) para nos ajudar a testar novas formas de medir o impacto do jornalismo na sociedade. Ele ou ela deverá ter familiaridade com programação em Python e (preferencialmente) conhecimento de jornalismo.

A pessoa será responsável por nos ajudar a criar e testar “bots”, scripts de monitoramento de redes sociais e raspagem de dados que ajudem a evidenciar o que acontece com as reportagens depois de publicadas.

A rotina: cinco dias por semana, até o fim de novembro de 2018 — metade deste tempo é de trabalho presencial, comigo (Pedro Burgos), e a outra é trabalho remoto.

Requisitos:
– Conhecimento intermediário de Python 3.x;
– Familiaridade com Github;
– Familiaridade com bancos de dados (SQL ou Mongo);
– Conhecimento de ferramentas básicas de raspagem de dados (BeautifulSoup/Selenium/Scrapy, etc);

Diferenciais:
– Ser jornalista;
– Familiaridade com com a rotina de uma redação de mídia;
– Conhecimento de alguma ferramenta visualização de dados;
– Empolgação em participar de um projeto inovador no jornalismo, reconhecido mundialmente, com apoio do Google News Initiative, International Center of Journalists e Projor;

Benefícios:
– O contrato é de R$ 4.000/mês (por MEI ou PJ) + até US$ 100/mês para custeio de cursos na área.

Gostou da ideia? Mande e-mail com até dois parágrafos que justifique com links por que você quer participar do projeto, e por que não devemos escapar a oportunidade de ter você, para pedro@impacto.jor.br. Receberemos e-mails até 15/7. 🙂

O jornalismo que salva vidas

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reportagens

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No dia 6 de junho de 2016, o então presidente interino, Michel Temer assinou o decreto 8.783 determinando que ao menos uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) deveria estar sempre disponível para fazer, exclusivamente, o transporte de órgãos destinados a transplantes. Ana Júlia Aleixo, de 8 anos, foi uma das pessoas salvas por esse decreto, dias após sua publicação. A menina pode agradecer também ao jornalismo pelo novo coração.

Isso porque a determinação de Temer veio um dia depois do jornal O Globo publicar uma série de reportagens sobre as consequências causadas pelas recusas da FAB em fazer esse tipo de transporte. A investigação mostrou que nos mesmos dias em que as recusas aconteceram, 716 autoridades viajaram para compromissos oficiais e para suas residências em aviões da Força Aérea. A capa dO Globo de domingo repercutiu nas mídias sociais, em outros veículos de notícias e foi mencionada logo no início do discurso de Temer, anunciando o decreto:

 

“Não esperava que teria esse impacto tão abrangente e tão rápido”, disse Vinicius Sassine, repórter responsável pela investigação. A primeira reportagem sobre o assunto nO Globo foi publicada em janeiro de 2016 e contava a história de Gabriel, que com 12 anos sofria de uma cardiopatia e precisava de um novo coração. Quando finalmente o órgão surgiu em Minas Gerais a FAB foi acionada, mas negou o transporte por “questões operacionais”. Gabriel voltou para a fila e 14 dias depois morreu.

Logo depois das matérias de janeiro, surgiu a ideia de investigar mais a fundo o assunto e fazer a série de reportagens. A apuração foi feita de janeiro a junho de 2016, usando coleta de dados e a Lei de Acesso à Informação, “Analisamos cada dia de cada recusa [da FAB]”, explicou Sassine. Cada uma das reportagens gerava não apenas repercussão nas redes sociais, mas também movimentos das autoridades. O Ministério Público começou a investigar a situação e em abril veio a liminar na Justiça Federal obrigando a União a transportar os órgãos.

A intenção desde o início era mostrar histórias parecidas com a de Gabriel e os desafios logísticos do transporte de órgãos. Além dos dados utilizados, o repórter acompanhou pessoas que esperavam nas filas de transplantes: “O que aquelas pessoas viviam naquele momento na fila e cujas histórias foram contadas – a maioria delas crianças – serviu para evidenciar a gravidade de se privilegiar transporte de autoridades e não transporte de órgãos com curto tempo de isquemia”.

A reportagem expôs o funcionamento dos voos de autoridades: ministros e presidentes da Câmara e do Senado viajam amparados pelo decreto 4.224 de 2002, ou seja, a Aeronáutica não pode se recusar a transportá-los.

Já corações, pulmões, rins, fígados e ossos não chegavam aos pacientes que precisavam por conta da falta de transporte adequado e rápido. Entre 2011 e 2015, a FAB se recusou a transportar 982 órgãos. O contraste entre o tratamento apresentado pelas reportagens dO Globo gerou milhares de posts revoltados no Facebook e Twitter.

 

Toda essa repercussão fez com que o governo voltasse ao assunto, aparentemente esquecido.

O impacto das reportagens persiste em cada viagem feita pela FAB para transportar um órgão. Um levantamento feito quase um ano depois da vigência do decreto mostra que a Aeronáutica transportou 258 órgãos. Nos três anos anteriores foram somente 68.

 

Após a primeira investigação do MP, a liminar em abril e o decreto assinado em junho de 2016, novos ajustes foram feitos na legislação para transplantes, incluindo normas para o transporte de órgãos. As mudanças seguem acontecendo. Nas redes sociais, a Força Aérea comemora os transportes que podem salvar vidas.

Vinicius Sassine pretende continuar acompanhando a história, “Mexeu muito comigo como repórter”, afirma. Ele ressalta que o propósito do trabalho sempre foi denunciar o problema e com isso é preciso encontrar uma forma de fazer jornalismo equilibrado.

As duas reportagens mais recentes sobre o tema foram publicadas em 21 de janeiro deste ano. Com o déficit do transporte contornado, outro problema atrapalha a logística das cirurgias: a falta de exames adequados e doadores. “Sentia que, como repórter, tinha a obrigação de voltar ao assunto, e com viés crítico, depois de tudo que aconteceu em 2016”, disse Vinicius que voltou a acompanhar as filas de transplantes. Já são onze reportagens sobre o tema.

As histórias retratadas dessa vez mostra a angustiante espera das famílias dos pequenos  Wellington, de 5 anos e Lorena, de 10 meses, ambos com problemas no coração. Para Sassine,  “As histórias são sempre tristes. Mas sempre há muita esperança dos familiares, e há algo bonito aí”.

Além de toda a ação governamental desencadeada após a publicação, a série recebeu em 2016, o Prêmio de Magistrados do Rio de Janeiro Patricia Acioli, na categoria “Reportagens jornalísticas”.

Em 2017: o Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde e o Prêmio GDA, na categoria “Reportagem noticiosa de investigação” e o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha, este último considerado o mais simbólico por Sassine.

O impacto e os prêmios devem ser encarados como uma consequência, ressalta o jornalista. “Foram importantíssimos como estímulo à reportagem, reconhecimento da qualidade e correção do trabalho e valorização profissional”.

Iniciando os trabalhos

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“Em 2017, a sociedade descobrirá o que é o jornalismo, para que ele serve, e como saber se está funcionando”. Esta era minha previsão — ou melhor, desejo — para o jornalismo brasileiro, documentada em um artigo que escrevi para a série do Farol Jornalismo e Abraji.

Escrevo agora no início de 2018, e desde aquele texto estou tentando transformar a previsão em realidade. Criamos em maio de 2017 o Impacto.jor, um conjunto de programas que ajudam organizações de mídia a saber o impacto do jornalismo na sociedade — e comunicar isso aos seus assinantes/apoiadores/leitores. O primeiro fruto prático deste trabalho é este relatório que a Gazeta do Povo ofereceu a seus assinantes no Natal, com a nossa ajuda.

Você pode entender mais sobre o projeto lendo este link ou assistindo este vídeo:

Com a ajuda do Google News Lab, ICFJ, Knight Founadtion e ProJor, vamos continuar desenvolvendo o Impacto ao longo de 2018. Enquanto isso, neste espaço aqui, vamos falar dessa experiência e tudo mais que for ligado a entender “para que serve o jornalismo e como saber se ele está funcionando”. Enquanto o Impacto vai ganhando corpo, tecnológica e metodologicamente, vamos publicar artigos, dados e alguns posts curtos sobre o estado da medição de impacto no jornalismo. Assinem a newsletter para não perder nossas atualizações, e participe mandando e-mails, compartilhando e comentando.

Isso vai nos ajudar a medir o impacto do Impacto. 😉